TEXTO I
O HOMEM E O TEMPO
(Antero de Quental)
Disse o Homem ao Tempo: – Ó gênio triste!
Onde a tua caverna horrenda e escura?
Por que trazes velhice e desventura
À minha carne que te não resiste?
Abomino-te a clava estranha e dura
Que dilacera tudo quanto existe!...
Por que razão me segues, lança em riste,
Estendendo-me as noites de amargura?
Por que fazes o riso envolto em pranto
E derramas o fel do desencanto
No doce vinho da felicidade?
Quem és tu? Monstro ou deus, arcanjo ou fera?
Onde o ninho de sombra que te espera
Nos remotos confins da Eternidade?!
II
Mas o Tempo exclamou:– Ergue-te e lida!...
Sou pajem divino que te exorta
A seguir para os Céus, de porta em porta,
Amparando-te os passos na subida...
Eras apenas larva indefinida
Quando arranquei-te à treva fria e morta.
Desde então, sou a luz que te transporta,
De forma em forma, para a Grande Vida.
Dou-te alegria e dor, miséria e glória,
Para que guardes, puro, na memória,
O amor de Deus que, em tudo, anda disperso...
Louva o trabalho que te imponho aos dias.
Sem meus braços, irmão, não passarias
De um verme preso às furnas do Universo.
TEXTO II
Poucos pensadores influenciaram tão decisivamente a reflexão sobre o tempo quanto Aurélio Agostinho de Hipona (Aurelius Augustinus Hipponensis, 354-430). Nascido no norte da África, professor de retórica antes de sua conversão, Agostinho é autor das Confissões, obra em que a filosofia ganha um tom inesperadamente íntimo. É ali que ele formula uma pergunta que atravessa séculos: “O que é, pois, o tempo?”.
E a resposta – ou melhor, a dificuldade de responder – é reveladora: para Agostinho, sabemos o que é o tempo enquanto o vivemos; perdemo-lo quando tentamos explicá-lo.
Agostinho rompe com a ideia de tempo como algo puramente externo, mensurável com um relógio. Para ele, o tempo se dá na interioridade: o passado vive na memória, o presente na atenção, o futuro na expectativa. Não são três tempos objetivos, mas três modos de experiência.
Em uma perspectiva linguística, a expressão do tempo em português (como em outros idiomas) parece acompanhar essa reflexão. Quando dizemos “lembro da viagem”, “estou lendo agora” ou “vou resolver isso amanhã”, não apenas localizamos ações – organizamos experiências no fluxo da consciência.
É por isso que os tempos verbais não funcionam como etiquetas rígidas. Mais do que marcar quando algo ocorre, a língua indica como o falante se posiciona diante do tempo, isto é, como se inscreve, no próprio ato de enunciar, no fluxo entre o que já foi, o que é e o que ainda não é. É nesse sentido que o tempo linguístico é inseparável da enunciação.
O tempo verbal presente, por exemplo, pode indicar um instante limitado ao momento da enunciação (“É meio-dia e um minuto”), pode demarcar um período já iniciado e que se estenderá além do momento da enunciação (“O país já está em clima de Copa do Mundo”) ou ainda indicar uma “verdade” perene (“Filho de peixe peixinho é”). Ainda que sejam diferentes extensões de presente, todas têm um elemento comum: há uma coincidência entre o momento do evento e o momento da enunciação. O presente linguístico não equivale ao presente físico, uma vez que, na língua, o que temos é uma fração temporal linguisticamente construída.
Há, aqui, um ponto de encontro: a filosofia de Agostinho descreve o tempo como vivido; a língua o expressa com base na experiência. Na perspectiva da enunciação, esse tempo não é apenas representado, ele é produzido no próprio ato de dizer.
Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/o-tempo-que-se-diz-entre-santo-agostinho-e-benveniste/
TEXTO III

Disponível em: https://www.guaranyjunior.com.br/2023/05/21/nada-muda-se-voce-nao-mudar/
PROPOSTA
Com base nos textos de apoio, redija um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema “A relação entre o homem contemporâneo e o tempo”, tendo em vista os seguintes aspectos:
• Redija seu texto obedecendo a modalidade culta da língua portuguesa;
• utilize argumentos e fatos para fundamentar seu ponto de vista;
• consulte seu edital para dissertar de acordo com o número de linhas exijido pela banca avaliadora; e
• dê um título ao texto, caso essa seja uma exigência do seu edital.
